Clubhouse: o rádio reinventado (mais uma vez)

Bom, antes de tudo saiba que para mim, usuário Android, o Clubhouse é como o caviar para Zeca Pagodinho: ‘nunca vi, nem comi (ou provei), eu só ouço falar’. E ah, como eu ouço falar. Um daqueles lançamentos bombásticos de aplicativo que já vimos—e provamos— tantas vezes desde os primórdios da rede mundial de computadores.

Foi assim com o ICQ (a primeira rede social que eu me lembro de ter utilizado), Orkut, Facebook, Twitter (a mais perene, na minha opinião), e mais recentemente Tik Tok (do qual mantenho distância segura). E agora parece que é a vez do Clubhouse, que se firma em estratégia de lançamento similar ao do Facebook e ao do nosso querido Orkut. Se quiser conhecer o que todos tem falado precisa ter convite, e mais do que convite, precisa ter um iOS. O filtro dos filtros, um clube para poucos.

Pelo que ouço falar, o Clubhouse não é bem a reinvenção da roda, não. Todas as chaves do seu sucesso já estavam aí jogadas na nossa cara e só precisavam de alguém minimamente ligado para uni-las em um só molho (pena que não fui eu). A base do Clubhouse é bastante popular e conhecida no Brasil: o rádio. Desde o começo do século 20, o rádio (e aqui falamos sobre a mídia e não sobre a tecnologia) foi responsável por conectar de forma rápida e eficiente pessoas, contextos e histórias. Duvido que exista alguma pessoa com mais de 10 anos de idade que não tenha qualquer tipo de relação afetuosa com o rádio, seja daquele programa musical com os seus hits favoritos, daquele programa de humor que te fazia você sorrir no meio do trânsito, das notícias sempre mais ligeiras do que na TV e toda a sua tecnicidade ou daquele programa tradicional da dona de casa e para esse abro um capítulo pessoal.

Minha mãe após ter os filhos (eu e mais uma irmã), decidiu que iria dedicar sua vida, além dos cuidados com a casa, à tarefa ingrata de nos prover educação (que muitas vezes estava ali gravada em nossa pele com um alfabeto próprio: a sola de uma havaiana). E em parte de seu dia, dedicado à casa e aos filhos, ela tinha — e ainda tem— no rádio a sua principal companhia. Aqueles tradicionais programas de rádio AM, comandados por excelentes radialistas e comunicadores, em que causos, músicas e histórias cotidianas da vida brasileira se viam representados. Eis o grande destaque do rádio, dar voz a gente que pensa como a gente. Nada de textos sem vida como um amontoado de letras, ou ainda a frieza e/ou exagerada teatralidade da TV. A voz é quente, amiga e complementar, assim como um simples telefonema, que quando se gosta, se arrasta por horas.

Clubhouse, por enquanto, só para dispositivo Apple – Foto: Reprodução/AppStore

O rádio chegou a ser declarado morto mais de uma vez, e por muitas tecnologias diferentes. Foi assim com o advento da televisão, que inicialmente se pautou pelo o que as emissoras de rádio já faziam. Nos programas de auditório aquelas vozes tão conhecidas pelo público ganhavam rosto, e a proximidade da tela. O efeito viciante foi instantâneo, e a partir dali grandes conglomerados de comunicação nasceram e se tornaram parte visceral da sociedade. Mas o rádio ainda garantia, instantaneidade: bastava ligar a ‘latinha’ e falar, ou então, em uma cobertura externa um simples telefonema e pronto: a informação estava ali. Nada de luzes, posições coreografadas, entre outras centenas de tecnicidades para se colocar um programa no ar. Não, o rádio não estava morto. O rádio sobreviveu em sua forma natural, e ainda reinventou-se, com imagens, na TV.

Mas então veio a internet, e com ela o super trunfo do rádio: a velocidade. É verdade que ela demorou a se mostrar promissora, mas tudo estava lá a um clique de distância: imagens, sons, vídeos. Então, alguém poderia imaginar: sim, dessa vez mataram o rádio. Mas está ele lá na dentro na web, em seu formato tradicional, ou no formato dos aclamados podcasts que ganharam tanta repercussão que até mesmo a Globo entrou de cabeça no case. O rádio não estava morto, mas sim reinventado.

O Clubhouse é parte da reinvenção do rádio. Nele, e aqui me debruço um pouco sobre o aplicativo em si, você forma grupos de conversa com tempo de duração definido (como um programa de rádio) e qualquer um pode entrar e escutar, ou até mesmo participar. Simples assim e ao mesmo tempo com o poder de movimentar milhões de dólares. Sorte de duas pessoas minimamente ligadas: Paul Davison e Rohan Seth, os criadores do Clubhouse que em apenas dois meses de vida já era avaliado em US$ 100 milhões de dólares. Achou muito? Pois saiba que em janeiro de 2020,6 meses depois a start-up já vale US$ 1 bilhão.

Janeiro, aliás, foi o mês do boom meteórico do Clubhouse embalado pela presença de gente importante na rede social: Mark Zuckerberg, Elon Musk, Bill Gates, Ashton Kutcher entre outros. Todos eles já deram entrevistas televisionadas, participaram de podcasts, e tudo mais, mas parece que a simplicidade de apenas ouvir o seu ‘guru’ ou ´ídolo’ , a um alto falante de distância tem sido fundamental para atrair multidões (de poucos e selecionados) para o Clubhouse. O rádio não está morto, está em reinvenção.

Rodrigo Freitas Escrito por:

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